Lá no alto da verdejante colina tem uma floresta encantada
construída com fios de luar. Tudo por lá é mágico. Os duendes e as fadas
conviviam harmoniosamente cada um realizando o trabalho de protetor das
florestas naturais. Cuidavam das árvores para que elas se mantivessem sempre
verdinhas e exuberantes. Os rios de águas azuis e cristalinas abrigavam imensos
cardumes que ornavam aquelas águas para a morada das sereias que viviam a
entoar lindas melodias para alegrar o dia dos viventes daquele belo espaço. As
borboletas voavam de cá para lá polinizando as flores para adornar as margens
daqueles regatos que serviam de palco para o encontro dos enamorados que vinham
nos finais de tarde trocar juras e carícias de amor. Todas as tarefas eram
cumpridas num ritual de alegria e serenidade. Mas... um dia chegou na floresta
encantada a fadinha Dondoca. Muito inteligente e perspicaz a mocinha percebeu
que naquele lugar reinava a paz e não seria nada fácil colocar em prática o seu
plano mirabolante. Cansada de ser escrava em outro reino onde uma bruxa malvada
comandava a todos com mãos de ferro. Dondoca distribuiu muitos sorrisos. Seu
plano era fazer uma aliança com os moradores e se tornar a rainha do lugar. Os
duendes ficaram encantados com a beleza da fada e satisfaziam seus mínimos
caprichos. Certa manhã as gotas coloridas da chuva encharcavam os canteiros o
que deixava o serviço mais difícil e pesado. Eram necessárias muitas mãos para
realizar um único trabalho e eles se organizavam em grupos porque sabiam que
unidos eram mais fortes. Mas e Dondoca? Cadê? Ela deveria estar ajudando as
fadas a retirar as inúmeras folhas que caíam com a força da chuva e deixavam
feios com aquele arzinho de desleixo os encantadores jardins. Uma das fadas saiu
irritada à procura de Dondoca. E sabem onde ela estava? Tirando uma soneca
dentro de uma xícara. Pronto! O rebuliço foi formado. Enquanto os guardiães
trabalhavam a fadinha folgada descansava curtindo o sono da beleza. Um
aglomerado furioso de fadas e duendes adentraram na cozinha do diminuto chalé.
Quando Dondoca os viu, fechou a cara e com pose de rainha perguntou:
_ Que ousadia é essa? Como se atrevem a invadir o meu chalé?
Estupefatos olhavam abismados a cena que se descortinava
diante de seus olhos. Dondoca estava deitada em uma rede tecida com fios de
estrelas e um grupo de fadas abobadas trabalhavam para ela. Uma penteava seus
longos cabelos, outras faziam massagem em seu delicado corpinho e alguns
duendes que mais pareciam eunucos abanavam a presunçosa fada com um leque
feitos com penas alvíssimas do pavão imperial. Num ímpeto de cólera a fada
Estelita, a mais experiente, apanhou uma vassoura de piaçava e partiu para cima
da fada Dondoca a desferir-lhes violentos golpes. Dondoca corria, gritava,
praguejava mas nenhum dos adjetivos maledicentes foram suficientes para que
Estelita voltasse à razão e deixasse de golpeá-la. Com os pensamentos em
redemoinho Dondoca lançou-se de joelhos aos pés de Estelita suplicando o seu
perdão. Mas... quanto mais ela suplicava mais a fada batia. Dondoca deixou-se
cair no chão e começou a chorar. Aquele chorinho desesperado comoveu Estelita
que largando a vassoura num canto foi a primeira a estender a mão para que
Dondoca se levantasse. Acariciou os cabelos de Dondoca e se preparou para ouvir
o relato da fadinha. E Dondoca em poucas palavras contou que na adolescência
foi estuprada pelo duende guardião que era casado com sua mãe e que ao contar o
fato sua mãe agrediu-a e expulsou-a do reino das fadas felizes. Caminhou dias e
noites e foi acolhida pela bruxa Zelda. E lá no reino das bruxas trabalhava
como escrava para ganhar um prato de comida e não sucumbir de fome. E foi lá
que descobriu esse recanto mágico e imaginou que ali pudesse ser tratada como
uma rainha. Dondoca reconheceu o seu erro. Estivera agindo como a bruxa Zelda.
Aproveitara-se da bondade das fadinhas. Chorando pediu desculpas. E hoje depois
de muitos anos a fadinha Dondoca foi coroada rainha da floresta encantada. A
vida dá muitas rasteiras mas internalizando-se as lições, mudando de postura,
pode-se galgar o topo mais alto na realização de um sonho.
Gracita
