domingo, 30 de outubro de 2022

Café com Prosa - Proseando com Olinda

 

A prosa de hoje vai te envolver porque a querida Olinda vem chegando
com a sua espetacular narrativa para nos prender nessa telinha
e nos deixar sempre querendo mais.
É uma prosa daquelas que pede um café bem quentinho 
com uma broa de milho recheada com queijo.
Acomode-se! Puxe o banquinho e sirva-se!
O banquete está pronto!
Chegou a hora... Vamos proseá?
Seja bem vinda, querida Olinda
 e queridos leitores!

Entre o Céu e a Terra 

Do Alto onde eu me encontro, domino tudo o que a minha vista alcança. Estou tão perto deste céu azul que quase toco as nuvens brancas de algodão, e este é o meu sonho secreto, o poder algum dia tocar-lhes. Continuo na minha posição descontraída, mas alerta. Firmo-me bem nas pontas da escarpa. Balanço-me um pouco para testar a elasticidade dos meus membros. Olho para baixo. Reparo na imensa beleza que se me oferece, a verdura, o barulho da nascente que daqui adivinho e, tenho de o admitir...o chilreio dos passarinhos assemelha-se a uma sinfonia perfeita. Uma leve aragem brinca com algumas das minhas penas e refresca-me o interior dos meus tendões possantes, sempre prontos para a acção. Neste momento nada me incomoda, não há empecilhos à vista. Posso dar-me ao luxo de me entregar a uma certa emoção. Estico as asas, como que a espreguiçar-me, e ensaio um pequeno voo. Tudo bem. Inicio um planado daqueles de que tanto gosto, imprimindo a pouco e pouco a velocidade necessária para resistir ao vento. Sinto-me livre e poderoso. Mais um pouco e pouso-me na primeira reentrância rochosa que se me depara. Passeio de novo o meu olhar, detenho-me nuns pontinhos que, lá em baixo, andam, saltitam dum lado para o outro. Sinto o meu lado mais feio vir à tona e o pior é que tenho a plena consciência disto. A minha natureza começa a querer tomar conta de mim com um frenesim que não me deixa pensar. O voo picado inicia-se automaticamente como se tivesse vida própria, numa velocidade desmedida. Passo rasando a avezinha que debica pequenos vermes. Como detesto isto... coisas rastejantes e afins! Não consigo controlar a descida. Vou quase de trambolhão em trambolhão e enfio o bico na terra dura. Ela dá saltinhos, gritando feita tonta. Que nervos...Fico frustradíssimo. Com certa dificuldade, tomado de vertigens, levanto voo, dou algumas voltas para me orientar e acalmar, tento uma nova investida, mas já não é a mesma coisa. Lá está ela ainda desorientada, toda coxa, asinha caída, a piar, enfim uma lástima. Deixá-la estar. Não chego a descer, dou meia volta e aponto-me para o espaço infinito. Quem sabe se ainda hoje não alcançarei as minhas nuvens... 

(Olinda Melo)


Bora degustar esta maravilhosa prosa com a querida Olinda Melo!!!!!!!